quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Vírgulas, pontos e reticências...



Costumamos medir o tempo em milênios, séculos, décadas, anos, meses, dias, horas, minutos, segundos... Em algumas situações, o tempo é "desimportante", pois não muda nada... Tomemos como exemplo uma obra de arte. Em outros, um milésimo de segundo pode definir o sucesso ou o fracasso de uma experiência científica.


"O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão
."


Para alguns, o fim de um ano, é como colocar um ponto numa determinada etapa da vida e mudar de parágrafo, que será escrito com as "vírgulas" dos meses. Outros ainda não tiveram tempo, sequer, de escrever o "ponto final" de suas vidas, surpreendidos em alguma fatalidade...


"O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olhar e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus..."



Outros ainda, deram e darão início às suas histórias de vida e dessas histórias outras virão, pois o homem tem a capacidade de, como um pequeno deus, influir em outras histórias e até, quem sabe, ser decisivo na própria história da humanidade.


"Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer."


Para alguns essa "mudança de parágrafo" significa apenas trocar o calendário sobre a mesa, ao invés de virar a folha dos meses, pois vêem em cada dia um "dia novo" e mais um dia de "construir felicidade". Para esses, talvez, a vida seja feita de reticências...


"O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles...e nenhum resolve.


Surge a manhã de um novo ano."



Portanto, aos que vivem de vírgula e pontos e aos "reticentes", desejo feliz ano novo... feliz dia novo... feliz cada momento novo... E que todos sejamos esses "construtores de dias novos", buscando a felicidade.


"As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasta renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia."

Poema "A passagem do ano"
Carlos Drummond de Andrade

Recife - PE

Comentários
3 Comentários

3 comentários:

Dentro da Bota disse...

(`“·.¸ (`“·.¸ ¸.·“´) ¸.·“´)
«`“·. ♥Feliz Ano Novo! ♥ .·“´»
(¸.·“´ (¸.·“´ `“·.¸) `“ ·.¸)

Un Ano Novo maravilhoso!!
Gi!

Manhosa LobaVirtual disse...

Querido Amigo do Coração

Agradeço a atenção e o carinho que sempre me agraciaste...(credo... que palavrão... mas...)
Saúde... Amor e Paz...
O resto... risos... já aprendemos a correr atrás...

TeAmo

Bjs.

Valentina disse...

Nossa Tinho que arraso de texto, que arraso de poema, inspirador para um ano novinho em folha!
Bjs

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