domingo, 1 de janeiro de 2012

Assim na morte, como na vida!


Ontem pela manhã fui a um velório. Não conhecia o falecido, que era padastro de um grande amigo, que dele sempre me falava de suas virtudes e valores. Era alguém mergulhado nas profundezas de sua mente, por conta do "mal de Alzheimer", mas que comunicava-se bem com esse amigo, seu enteado, em seus raros momentos de superfície.

Fiquei ali por exatamente uma hora. Um certo momento, alguém convidou todos a fazer uma oração pelo morto. Esse senhor apresentou-se, falou de sua relação de amizade com o morto e, em seguida, falou com a propriedade reservada aos amigos, sobre a vida do falecido, sobre o sentido cristão da morte e sobre a certeza de que aquele senhor havia sido acolhido pelo Céu, com alegria.

Tão logo aquele senhor, que parecia professar o protestantismo, embora em nenhum momento tenha feito nenhum tipo de proselitismo, concluiu sua fala, chegou ao local um padre católico, convidado pela família, para fazer as práticas recomendadas pela Igreja para essas ocasiões. O padre chamou meu amigo de lado e fez algumas perguntas de praxe: nome dos filhos, da esposa, se tinha irmãos presentes, se tinha netos, enteados, etc.. etc.. etc...

Não fiquei para ouvir as palavras do padre, mas saí dali imaginando que, embora o padre não tivesse culpa alguma disso, mesmo que tenha dito as palavras mais bonitas que conhecia, mesmo que tenha o dom da oratória, não seria capaz de falar do morto, com a propriedade que o amigo falara um pouco antes, porque o conhecia, porque era seu amigo.

Quando chegar o meu momento, no meu velório, gostaria que apenas amigos de verdade, se quisessem, falassem sobre mim, inclusive sobre meus incontáveis defeitos. Cerimônia religiosa, sim. Mas não pessoas que falem sobre mim como se me conhecessem, sem que isso seja verdade. Que não fosse um momento de choro e lamentações, mas da alegria de um "encontro de amigos", com música alegre, com boas lembranças...

Dali, sair para o crematório e só daí, enterrarem minhas cinzas, que servirão de alimento à terra, porém um "alimento já processado", para não dar trabalho à "mãe terra".

No mais, de onde estiver "continuando minha vida", gostaria que pensassem em mim, exatamente como descreveu o poeta Carlos Pena Filho, em seu poema "Testamento do Homem Sensato", com o qual termino esse post:


Quando eu morrer, não faças disparates
nem fiques a pensar: Ele era assim...
Mas senta-te num banco de jardim,
calmamente comendo chocolates.

Aceita o que te deixo, o quase nada
destas palavras que te digo aqui:
Foi mais que longa a vida que eu vivi,
para ser em lembranças prolongada.

Porém, se um dia, só, na tarde em queda,
surgir uma lembrança desgarrada,
ave que nasce e em vôo se arremeda,

deixa-a pousar em teu silêncio, leve
como se apenas fosse imaginada,
como uma luz, mais que distante, breve.



Recife - PE
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