sábado, 16 de junho de 2012

A bodega de Zé Miúdo


Santa Cruz do Capibaribe, onde estive os dois últimos dias atrás, por motivos profissionais, é a cidade onde nasceu meu pai e também onde eu passava férias, juntamente com um de meus irmãos, na casa de meu avô, durante alguns anos de minha infância.

Santa Cruz do Capibaribe é também a terceira maior cidade da região do Agreste Pernambucano, cuja maior cidade é Caruaru. Tem cerca de 90 mil habitantes e é conhecida nacionalmente como a "Capital da Sulanca". Segundo dados do SENAI, é a segunda maior produtora de confecções do Brasil.



Mas nesta viagem tive a oportunidade de conhecer um lado dessa cidade, que é cada vez mais raros nas cidades do interior nordestino: a bodega de Zé Miúdo, que funciona na Rua Graciliano Arruda, naquela cidade.

Fundada há 55 anos e hoje administrada por seu filho, Arlindo, é um lugar onde se sente "cheiro de bodega", como bem ressaltou meu cicerone e primo, Fábio Lopes.



De repente fiz uma "viagem ao passado", ao relembrar das bodegas de minha infância, na cidade de Caruaru, hoje extintas: a "venda do seu Davi" e a "venda de Getúlio", cada uma delas em esquinas opostas na Rua Bahia, naquela cidade.


O cenário é sempre o mesmo: um prédio com duas ou três portas de acesso, um balcão-vitrine, em madeira, onde os fregueses são atendidos, prateleiras com bebidas que fariam corar os mais puristas, como o "Vinho Quentinho de Gengibre, o "Vinho Carreteiro" (ainda em garrafa de vidro), a cachaça Pitu e, o refrigerante de minha infância, a Cajuína, onde o caju passava longe.



A balança Dayton era uma novidade, sucessora da velha balança de dois pratos, com pesos de ferro, para contrabalançar os produtos nela pesados: queijos, carne de charque, salame, mortadela, etc.



O depósito de balas então, brilhava aos meus olhos de criança, como um "carrossel de sabores", onde se destacavam os confeitos de menta "Extramint" em sua forma retangular e as balas de "Mel de Abelha", que continham em seu recheio um xarope que imitava o verdadeiro mel. Sem contar com os pirulitos Zorro.



Verdadeiros "supermercados", vendiam de tudo, como as vassouras de piaçava e papel higiênico de quinta qualidade, como nas fotos acima e abaixo.



E eram também o local onde se podia fazer uma "fézinha" no jogo do bicho, passando no fim da tarde pelo local, para conferir a sorte.


É certo que o progresso é inevitável, porém ele jamais poderá vir (e vem) como um "devastador do passado", atropelando os bons e os maus, indistintamente.

Aproveito e faço um apelo às autoridade da cidade, que preservem aquele espaço e que façam dele uma atração turística, que possa ser frequentado inclusive, pelos mais jovens, a exemplo da "Bodega do Véio", na cidade de Olinda, pois, como disse Bob Marley, "um povo sem conhecimento, saliência de seu passado histórico, origem e cultura, é como uma árvore sem raízes".



Recife - PE
Comentários
3 Comentários

3 comentários:

Ewertom Cordeiro disse...

Agostinho,

Ler estas linhas me transportou a minha infância, coisas como a Cajuína, sempre uma constante nas minhas voltas para casa após as aulas, o depósito de balas que de fato faziam brilhar os nossos olhos... tempos bons e despreocupados.

Merece sim ser preservado e guardado não só em nossas memórias!

Abraço.

Fábio Lopes disse...

Parabéns pelo texto! visitar a venda de Zé Miúdo é realmente uma volta ao passado.

Larissa Moura disse...

eita bala de Mel!! infancia!!

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