terça-feira, 5 de junho de 2012

Salvaguarda: um mal disfarçado de bem!




O assunto de hoje serve de alerta para todos apreciadores de bons vinhos, sobre os riscos que estamos correndo, se for transformado em lei, um estudo em curso no Ministério do Desenvolvimento, para restringir a importação de vinhos para nosso país. O estudo foi solicitado por diversos produtores gaúchos, entre eles a Casa Valduga, a Miolo, Salton, Aurora, etc.

Com o argumento de “proteger a indústria nacional”, se estuda aumentar o Imposto de Importação dos vinhos estrangeiros, de 27% para 55%. Isso seria apenas o Imposto de Importação, sobre o qual, somado ao preço de compra, recairiam ainda os demais impostos federais e estaduais, as famigeradas siglas que já fazem parte de nosso dia-a-dia: IPI, PIS, COFINS, ICMS e outros.

Se aprovada, a medida recairia sobre os vinhos vindos da Europa, Estados Unidos, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul e até mesmo do Chile. Apenas Argentina e Uruguai, membros do Mercosul, ficariam de fora.

Se esse estudo for aprovado, será um retrocesso ao início dos anos 90, quando não tínhamos acesso com facilidade ao vinho estrangeiro de boa qualidade e quando a própria indústria nacional fabricava vinhos sofríveis, de péssima qualidade, acobertadas pelo manto da quase exclusividade de mercado. Resultado: baixíssimo consumo de vinho pelos brasileiros.

A qualidade do vinho nacional melhorou sensivelmente com a abertura das fronteiras, porém há um limite para essa melhora, quando passamos a falar de “terroir”, palavra de origem francesa, sem tradução para o Português, que significa “a relação mais íntima entre o solo e o micro-clima particular, que concebe o nascimento de um tipo de uva, que expressa livremente sua qualidade, tipicidade e identidade em um grande vinho, sem que ninguém consiga explicar o porquê”. Ou seja, geograficamente o “terroir” brasileiro, não é favorável. Tampouco a indústria nacional atende a demanda atual por vinhos, que, para os importados, saltou de 37 milhões de litros em 2005, para 72 milhões de litros, em 2011.

O mercado brasileiro já está reagindo a essa possível medida e, como protesto, diversos restaurantes pelo Brasil, retiraram de suas cartas, os vinhos nacionais, movimento que foi dado início por restaurantes como o D.O.M, do chef Alex Atala, o Aprazível, do Rio de Janeiro, O Piselli, de São Paulo, entre outros.

E qual seria a melhor forma de favorecer a Indústria Vinícola nacional? Várias medidas poderão ser tomadas por um tempo determinado e também em definitivo. Entre elas a de incentivos à maior capacitação de nossa indústria, junto a países tradicionais e a desoneração de máquinas e equipamentos utilizados na produção do vinho, bem como a redução da carga tributária sobre o produto final, de resto extremamente alta, como a carga que atinge todos os setores produtivos nacionais.

O que não se pode fazer é, mais uma vez, penalizar o consumidor final, privando-o do acesso aos vinhos finos, exatamente quando o consumo da bebida está se tornando cada vez mais popular, ainda muito baixo, de 0,56 litros per capita, segundo dados de 2009, mas que já foi bem menor.

Manifestemos-nos então, contra mais essa medida restritiva, que prejudicará não apenas os consumidores finais de vinhos finos, mas também toda a cadeia envolvida na comercialização da bebida: importadoras, distribuidores, restaurantes e lojas especializadas. A decisão, então, pode se tornar “um tiro que pode sair pela culatra”.


Texto de minha autoria publicado originalmente
na coluna "Vinhos & Afins" do blog Restaurante em SP em 14 de abril deste ano


Recife - PE
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