domingo, 5 de maio de 2013

Hoje é domingo, pé de cachimbo...


Em casa há muita paz por um domingo assim. 
A mulher dorme, os filhos brincam, a chuva cai... 
Esqueço de quem sou para sentir-me pai 
E ouço na sala, num silêncio ermo e sem fim, 

Um relógio bater, e outro dentro de mim... 
Olho o jardim úmido e agreste: isso distrai 
Vê-lo, feroz, florir mesmo onde o sol não vai 
A despeito do vento e da terra que é ruim. 

Na verdade é o infinito essa casa pequena 
Que me amortalha o sonho e abriga a desventura 
E a mão de uma mulher fez simples, pura e amena. 

Deus que és pai como eu e a estimas, porventura: 
Quando for minha vez, dá-me que eu vá sem pena 
Levando apenas esse pouco que não dura.



Soneto de um Domingo
Vinícius de Moraes


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